Saber lidar com um "não" e passar à frente, não é para todos

 

O colete de voluntário, parecia pesar uma tonelada sobre os ombros da Caetana, operadora de caixa, que demonstrava  um excelente domínio das técnicas de registo e manuseio de valores. A sua postura mais contida não afeta o rendimento, sendo uma colaboradora de confiança e com grande traquejo na função.

Naqueles dias, à sua volta, o supermercado fervilhava com o barulho de carrinhos de compras, caixas registadoras a bipar e conversas cruzadas. Na mão, ela segurava um cartaz com  vales do Banco Alimentar. O objetivo era simples: pedir às pessoas que doassem um valor simbólico para ajudar quem mais precisava. O problema? Caetana sentia algum embaraço na ação.

Sempre que divulgava a campanha a alguém, o seu coração acelerava. Ela ensaiava uma frase na cabeça, mas as palavras pareciam prender-se na garganta. Quando finalmente conseguia fazer o pedido, a resposta era quase sempre um desvio de olhar, um passo apressado ou um mecânico "Não, obrigado ", ou pior, ouvia queixas, reclamações,  e desabafos, que ainda a deixavam mais ansiosa e bloqueada.

Caetana via as colegas, mais hábeis, a conseguir agarrar a atenção do público com facilidade. Sorriam no momento certo, usavam as palavras exatas e tocavam no coração de quem passava. Faltava-lhe talvez as técnicas, o jogo de cintura e a lábia de uma verdadeira vendedora. Sentia que a sua timidez e ansiedade estavam a falhar com as famílias que dependiam daquelas doações, transformando uma causa nobre num teste doloroso à sua própria capacidade de comunicação.


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