Entre o sonho, o desejo e a realidade
Durante a minha infância, adolescência e juventude, o meu maior sonho era ser professora primária — ou, como dizemos hoje, do ensino básico. Havia em mim um desejo profundo de ensinar e de cuidar das crianças. Nas minhas brincadeiras de menina, os meus primos mais novos eram os meus alunos. Aliás, qualquer miúdo que entrasse na minha casa transformava-se em estudante, e eu lá me "armava" em professora. O cenário era simples: folhas, lápis, canetas e um quadro improvisado no cimento frio de uma garagem. Hoje, uma dessas primas é professora de verdade. Ela faz questão de me lembrar, com carinho, que fui eu quem lhe ensinou as primeiras letras, as primeiras palavras e o milagre da leitura. Ela é o meu maior orgulho.
Infelizmente, ao chegar ao 12.º ano, a realidade bateu à porta. Percebi que o sonho teria de acabar ali e que a minha jornada de estudos não iria continuar. Ainda fiz a PGA (Prova Geral de Acesso), agarrada à esperança de que algo mudasse. Mas faltou-me apoio. Faltou-me alguém que me guiasse, que me dissesse que era possível trabalhar e estudar ao mesmo tempo para sustentar esse futuro. Só anos mais tarde descobri que havia quem o fizesse. O tempo seguiu o seu curso, os empregos foram surgindo e a antiga meta ficou guardada numa gaveta. Só voltei a sentir o sabor da docência muito depois, ao sentar-me com o meu filho para o ajudar nos trabalhos da escola.
O destino acabou por me levar ao meu trabalho atual: operadora de caixa. Já passei por outros caminhos, mas foi aqui que escolhi fixar as minhas raízes. Eu, que sempre fui uma pessoa tímida e calada, descobri atrás deste balcão a arte de conversar e, acima de tudo, a dádiva de saber ouvir. Aquilo que mais me preenche são os momentos sem pressa, em que posso trocar palavras com quem passa. Gosto muito de interagir com as crianças, com os velhinhos, enfim, com as pessoas em geral. Emociono-me, genuinamente, com as histórias de vida que partilham comigo e com o carinho sincero que recebo de tantos clientes.
Às vezes, as histórias que me contam são pesadas demais. Nesses dias, lamento não ter formação em Psicologia, Sociologia ou Serviço Social — gostava tanto de ter a palavra exata para curar ou confortar aquele coração. Também gostava de ter mais ferramentas para acalmar os clientes mal-humorados, de os fazer ver que a vida é curta demais para nos chatearmos por um lugar na fila ou por um preço trocado. Tudo na vida tem solução, e eu própria gostava de conseguir respirar fundo e esquecer o stresse.
Já entrei na casa dos 50 anos e, embora a faculdade continue a ser aquele sonho bonito do passado, sinto que a energia e a memória já não acompanham a minha vontade de voltar a estudar.
Ainda assim, já que não tenho essa formação académica, tento usar sempre o bom senso e o coração!

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