Cada Cabeça, Cada Sentença... e muito Contactless


Era um domingo, dia de grande afluência no supermercado, e as filas eram enormes. Confesso que não gosto de dias muito parados, com poucos clientes, mas também me preocupam aqueles em que não vejo o fim da linha e há demasiada gente no mesmo espaço. Como costumo dizer, já levo mais de duas décadas como operadora de caixa e estou habituada a este ritmo. Podem achar que é um trabalho monótono — sempre as mesmas pessoas, as mesmas atitudes, a pressa e as conversas de circunstância. No entanto, se estivermos atentos aos pormenores, descobrimos que há sempre situações novas e diferentes que merecem a nossa atenção.

Estava a atender um senhor jovem. No momento de fazer o pagamento, ele inseriu o cartão de multibanco, mas o chip dava erro. Repetiu o processo umas quatro ou cinco vezes. Perguntei-lhe então se podia tentar; tentei uma, tentei duas vezes, e o erro persistia. À terceira tentativa, ao mesmo tempo que lhe dizia "vamos tentar assim…", aproximei o cartão do terminal para usar o contactless e, finalmente, resultou.

Só que o senhor ficou furioso. Disse-me que não me tinha dado autorização para aquele procedimento e que era totalmente contra essa tecnologia. Humildemente, pedi-lhe desculpa. Expliquei que o fizera por impulso, com a única intenção de resolver o problema, e voltei a pedir desculpa. Contudo, ele continuava ali,  já com a conta paga e o talão na mão, a exigir que eu revertesse aquela forma de pagamento. As pessoas olhavam todas, inclusive as das outras filas. Eu só queria continuar a atender quem estava à espera, mas ele não saía dali. Foram minutos que pareceram horas.

Logo a seguir, estava um homem que, querendo quebrar o gelo, disse que fazia questão de usar aquela tecnologia. Depois, seguiu-se um casal de mais idade; a senhora comentou que o atendimento ao público era muito, mas mesmo muito complicado, usando a expressão "cada cabeça, cada sentença!" e aconselhando-me a ter calma. 

Acho que, da próxima vez que tiver de tocar no multibanco de um cliente, faço primeiro um inquérito!

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